Rodrigo Corleto Hoelzl*
A planilha de custos do transporte coletivo de Curitiba e Região Metropolitana pode - e deve - ser pública. Compromisso assumido pela Diretoria e os empresários do Setransp, é agora cumprido. A publicação da planilha será feita através deste site da entidade, com atualizações mensais. É o ingrediente da ética consolidada no nosso relacionamento com a sociedade, que respeitamos e a a qual precisamos prestar contas dos serviços que lhe são prestados.
Não se justifica mais que a pequena divulgação oficial da planilha, dada até hoje, seja o foco de questionamentos, dúvidas e muita desinformação nos debates sobre o sistema. Nada melhor que tirá-la da sombra e expor todos os seus dados, que são acompanhados, um a um, pelo poder público, através da Urbs, a gerenciadora do transporte. O poder público tem controle total sobre todos os custos e faz valer esta sua preorrogativa, no dia a dia.
À decisão de democratizar as informações sobre a planilha vem se somar aos bons resultados do Fórum Transporte Curitiba, realizado no início deste mês, quando tivemos ótimas discussões que enriqueceram muito as idéias do setor e trouxeram esclarecimentos importantes sobre o nosso tão reconhecido transporte coletivo, do qual nos orgulhamos de ser operadores. Todos os participantes - empresários, representantes do poder público, especialistas em mobilidade urbana, técnicos do setor e juristas - de olhos postos no futuro, sob o lema “Nada é tão bom que não possa melhorar”. Uma alusão à qualidade dos serviços oferecidos aos quase 2 milhões/dia de usuários e a preocupação das operadoras em contribuir para que sejam encontradas soluções que atendam aos interesses dos nossos clientes, do poder público e das empresas.
A abertura da planilha e o Fórum Transporte Curitiba, que terá caráter permanente, acontecem no momento em que a Câmara de Vereadores começa a debater a proposta da Prefeitura Municipal de Curitiba de nova organização do sistema e a delegação de sua execução. Um ingrediente a mais na nossa reflexão coletiva.
Mas não se pense que a licitação é a chave mágica para as deficiências que a vida urbana apresenta. Ela não pode ser entendida como o remédio milagroso para a já histórica falta de investimentos em infra-estrutura, o baixo poder aquisitivo da população, o peso da tarifa única e das gratuidades, a alta incidência de tributos, o estrangulamento das canaletas, a insegurança nos ônibus.
Estamos todos diante de um grande desafio: como continuar conciliando qualidade dos serviços com preço justo de tarifa e, o mais grave, como permitir que só parte dos que usam ônibus subsidiem a tarifa do transporte coletivo, que beneficia diretamente toda a sociedade?
Está na hora de repensarmos este modelo, que apresenta sinais de envelhecimento e perpetua uma injustiça porque a tarifa pesa mais no bolso do trabalhador. O transporte coletivo precisa, definitivamente, ser uma política clara de governo – e, portanto, com o dever dele investir, fomentar e destinar recursos para infra-estrutura.
Isto não significa que as empresas operadoras estejam pedindo benesses, privilégios ou aumento de tarifa. O que propomos é que haja uma ampla discussão com a sociedade, para que fiquem esclarecidos os papéis de cada um dos participantes deste processo. Temos um lugar assegurado neste processo.
Não há fórmulas mágicas. Há soluções técnicas que podem e devem ser implantadas. Por exemplo: a maior queixa dos usuários se refere aos horários de pico. Quando as viagens são feitas com os ônibus lotados, há uma clara queda da qualidade do serviço. E não por culpa das operadoras.
Por que a URBS não repensa estes períodos de estrangulamento de oferta? É possível estabelecer – num pacto com os setores produtivos – um escalonamento dos horários de trabalho dos diversos setores da vida econômica da cidade. Isto interessa de perto ao comércio e a indústria, que dependem de um grande contingente de mão-de-obra e grande usuária do sistema. A tarifa única, adotada pioneramente por Curitiba, foi um grande avanço e instrumento de inclusão social. Não estou propondo sua extinção. Pelo contrário. Mas temos que levar em consideração novos conceitos, como a flexibilização tarifária, como forma de atrair novos usuários para o transporte coletivo.
Tratar o transporte coletivo como serviço essencial é garantia de qualidade de vida para toda a cidade. Em um bi-articulado viajam 270 pessoas. Se o sistema for atrativo para mais cidadãos, cada um destes ônibus poderá substituir 200 automóveis particulares circulando pelas nossas vias.
Com isto se pode pôr freio ao stress diário que o trânsito causa, reduziremos os índices de poluição do ambiente e vamos também economizar combustível.
Não podemos mais fechar os olhos para estas questões, que nos preocupam há tempos. A história e a experiência dos empresários de ônibus de Curitiba e Região Metropolitana nos credenciam ao reconhecimento como participantes deste necessário debate. O objetivo é um só: projetar um futuro que reafirme aos cidadãos seu direito a um transporte de qualidade e acessível.
Assim, se justificaria a origem da palavra ônibus – om-nibus. Um veículo “para todos”.
*Rodrigo Corleto Hoelzl, presidente do Setransp
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