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Entrevista
Ayrton Amaral
Jan 2008

Leia a íntegra da entrevista com Ayrton Amaral, Diretor Executivo do Setransp – Sindicato das Empresas de ônibus de Curitiba e Região Metropolitana, publicada na Edição nº 19 da Revista InBus que circula nos meses de Janeiro e Fevereiro em todo o país (www.inbus.com.br).

Sala VIP

Há mais de um ano, Ayrton Amaral (foto), 49 anos, vislumbrou um novo horizonte profissional. Após acumular experiência na iniciativa privada como executivo de uma importante multinacional da indústria automobilística, agora ele coloca em prática todo o seu conhecimento como diretor executivo do Setransp – Sindicato das Empresas de ônibus de Curitiba e Região Metropolitana - responsável pela prestação de um serviço público, e um direito do cidadão, que é o transporte coletivo.

InBus – Como a sua experiência tem ajudado na prática sindical e quais as principais diferenças da prestação de serviços públicos comparada com a atividade privada?

Ayrton Amaral - Acredito que em qualquer caso, o objetivo do empreendedor é fornecer a seu cliente um produto de qualidade a um preço competitivo. O empreendedor sabe que apenas assim poderá obter os resultados que deseja e perpetuar sua empresa ou negócio. Na empresa privada a relação é direta com o consumidor, seja através de distribuidores ou diretamente, com o mercado regulando o custo do produto ou serviço. No caso dos serviços de transporte público, há uma forte interferência dos órgãos de gestão que alteram esta relação de custo/ benefício. Neste caso há sempre um componente político, que se não for conduzido de modo muito eficaz pelo poder público, acaba por aumentar o custo do serviço sem o necessário aumento de qualidade no serviço.

InBus – Qual a saída para esse dilema?

Ayrton Amaral – A saída é o diálogo permanente entre gestores e operadores do sistema que têm que conviver com as lógicas ditadas pelo mercado e pelo Estado, algumas vezes, paradoxais. Como exemplo, cito a política de gratuidades, que aumenta o custo da tarifa de transporte para todos os usuários. Certas isenções são justas, mas deveriam ser dadas pelo poder público indicando fontes de custeio, desta forma não onerando a tarifa.

InBus - Comparado a Curitiba, qual a avaliação do sistema de transporte público existente em relação a outras cidades do país?

Ayrton Amaral - A principal diferença é que o sistema de Curitiba foi planejado a partir de um Plano Diretor que definiu os espaços de crescimento da cidade, aliando os corredores de transporte ao o uso do solo para que a cidade crescesse de forma mais organizada e bem distribuída. Os corredores passaram a ser a base de uma rede onde há estações de transbordo, com alimentadores que trazem os passageiros dos bairros e linhas circulares. Este sistema evita o número excessivo de viagens ao centro, como é comum na maioria das cidades.

InBus – Como esse sistema beneficia o usuário?

Ayrton Amaral – A integração é a chave para que o transporte público seja considerado pelo usuário uma opção segura, confortável e economicamente viável. E essa integração é outro diferencial em Curitiba com 12 municípios da Região Metropolitana interligados, com uma tarifa única de R$ 1,90. Em algumas linhas integradas, o passageiro pode se deslocar em até 80 km pagando apenas uma passagem. A estação tubo é outra solução criativa, pois além de permitir a cobrança da tarifa fora do ônibus, está no mesmo nível do piso dos ônibus, facilitando o acesso. Estas estações também atuam como elementos protetores ao frio e a chuva, comuns em nossa cidade. Estes são alguns diferenciais que fazem de Curitiba modelo para todo o mundo.

InBus - Qual a diferença de visão antes e depois de participar ativamente do Sistema de Transporte de Curitiba?

Ayrton Amaral - Sem dúvida é a complexidade. Quando se conhece o Sistema de forma conceitual é como olhar para o mostrador de um relógio. Vemos o resultado, que são as horas, mas desconhecemos como são os mecanismos que mantém a precisão do tempo. Por outro lado, trabalhar ativamente com o Sistema é o mesmo que abrir a tampa do relógio, conhecer suas engrenagens, a relação entre elas e o que é importante para que tudo isto funcione perfeitamente. Claro que no Sistema de Transporte real, o número de variáveis é muito maior e suas mudanças extremamente dinâmicas. Enfim, passa-se a entender que para bem operar uma empresa de transporte é necessário um alto grau de especialização. As empresas de ônibus de Curitiba estão entre as de maior expertise de operação em nosso continente.

InBus - As Empresas de Transporte de Curitiba e Região Metropolitana realizaram no final de outubro o II Fórum Transporte Curitiba, o principal evento de discussão do transporte coletivo do estado, onde estiveram presentes autoridades e especialistas. Qual o objetivo do setor em realizar um evento desta magnitude?

Ayrton Amaral - O principal objetivo do Setransp é discutir de forma aberta e transparente os problemas conjunturais ou específicos que afetam o transporte coletivo, aprofundando a análise dos temas, como marco regulatório, integração da região metropolitana, tributação, meio ambiente, desejos dos usuários, produtividade, remuneração das empresas, gratuidades, entre outros temas. Pensamos que apenas com a disseminação do conhecimento da realidade do setor é que se pode criar um ambiente positivo para a geração de propostas criativas que tragam menores custos, maior eficiência ao sistema e atendam as necessidades dos nossos clientes, os usuários do transporte.

In Bus - Quais as principais propostas surgidas no II Fórum?

Ayrton Amaral – O lema do II Fórum é “Transporte para o Futuro” e as principais propostas visam preparar a cidade e as empresas para um futuro mais promissor. Entre estas propostas, por exemplo, há que se aumentar a velocidade média dos ônibus nos corredores exclusivos. Nestes 72 quilômetros de canaleta, já tivemos velocidades em torno de 22 km/hora e, hoje, chegamos a pouco mais de 16,5 km/hora, o que representa uma redução de 25%. Outra idéia é a necessidade de se modificar a forma de remuneração das empresas, deixando transparente a rentabilidade necessária e adequada para o capital empregado e compartilhando, simultaneamente, os ganhos em produtividade com o cliente-usuário do transporte.

O II Fórum também sugere uma profunda revisão da carga tributária que incide sobre o transporte coletivo, que atualmente alcança a magnitude de 52% do custo do serviço. O que é um exagero. Esta tributação faz com que o governo seja o sócio majoritário do transporte coletivo, captando para si mais de 35% do custo da tarifa. Ai reside a maior oportunidade de redução dos custos tarifários no país, beneficiando diretamente a população que utiliza este serviço.

InBus – Fala-se em implantar o metrô em Curitiba e este foi um dos temas do II Fórum foi justamente esse. Como está sendo encaminhada essa questão?

Ayrton Amaral – Por se tratar de um evento técnico e econômico, como deve ser, as diversas opções e alternativas para o transporte coletivo sempre estiveram e estarão na pauta de discussões. Porém, é do entendimento deste sindicato que o sistema de transporte de Curitiba, que é modelo para tantas outras cidades pelo mundo, ainda não está esgotado. Muito pelo contrário! O custo/benefício da implantação do metrô ainda não se justifica para nossa cidade. Ora, o capital investido para a construção de 1 km de metrô oscila em valores mundiais de U$ 50 a 100 milhões, dependendo do tipo terreno e eventuais desapropriações. Constatamos que com este valor, Curitiba pode aumentar a capacidade de transporte do eixo norte-sul em mais de 30%, isto é, saltando de 390 mil passageiros/dia para aproximadamente 500 mil.

InBus - De que forma?

Ayrton Amaral - São várias ações que podem incrementar o atual sistema: Inicialmente, com investimentos em tecnologia em priorização semafórica para os coletivos; possibilitar de ultrapassagem no corredor; aumentar da capacidade das estações de maior demanda, permitindo que o veículo utilize um número maior de portas para embarque/desembarque, diminuindo o tempo de parada; utilizar o mesmo conceito do metrô em relação à distância entre as estações, ou seja, 800 metros entre elas diminuindo pela metade o número de paradas no trajeto; além de tudo isso, Curitiba poderia ser vanguarda novamente criando estações subterrâneas nos moldes do metrô naqueles cruzamentos em que o trafego de veículos não permite o fluxo contínuo. O somatório destas medidas elevaria a velocidade média na canaleta, e consequentemente, as viagens seriam realizas em tempos muito similares ao do metrô. E tudo isso, a um custo menos do que 1 km de metrô para solucionar a necessidade do corredor norte/sul e sua extensão de 22 km. Com essa economia de U$ 1 bilhão ao não implantar o metrô, o Poder Público poderia investir em políticas para solucionar problemas mais graves para o cidadão, que é Saúde, Educação, Moradia, Saneamento básico e Segurança.

InBus – Quais os próximos desafios para o setor?

Ayrton Amaral – O grande desafio para o setor é a conscientização de todos os segmentos da sociedade de que o transporte coletivo seja prioridade sobre o transporte individual. Este processo cultural mostraria, tanto para os governantes como para a população, que a proliferação de automóveis e motocicletas está gerando dificuldades expressivas na mobilidade urbana, incrementando excessivamente os danos ao meio ambiente e gerando custos significativos para o sistema de saúde e para a sociedade. A cada ano, é maior número de acidentes, especialmente com pilotos de motocicletas. Curitiba sempre foi vanguarda na questão de planejamento e desenvolvimento de soluções para o transporte coletivo e nós, empresários que operam o sistema, temos muito que contribuir para garantir ao usuário o melhor serviço e a menor tarifa. Até porque, como em muitas cidades, o transporte coletivo é a solução para os congestionamentos, para a diminuição da poluição e do aquecimento global. Mas para se configurar uma opção viável para aqueles que escolheram outro meio de transporte e até para conquistar futuros usuários, é preciso um debate isento, eminentemente técnico e transparente em seus objetivos, entre poder público e iniciativa privada.

 
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